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Aracy Guimarães Rosa, o anjo de Hamburgo

A brasileira extraordinária que salvou vidas durante a Segunda Guerra Mundial

“Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada.” Edmund Burke

Quando falamos de heróis, pensamos nos grandes atos de ressonância pública, nos gestos de grande impressão, quando na verdade, muitos dos heróis em tempos de guerra e ditaduras, são pessoas comuns, que arriscaram suas vidas e se esforçaram, a despeito das circunstâncias, para salvar outras pessoas.

E uma destas histórias incríveis aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, por uma brasileira, ainda desconhecida por muitos de seus conterrâneos: Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa. Se o sobrenome lhe soa familiar, pois bem, daqui a pouco chego lá.

A bela e corajosa Aracy Moebius de Carvalho. Foto: https://www.arqshoah.com/index.php/justos-e-salvadores/2521-jus-5-rosa-aracy-moebius-de-carvalho-guimaraes

Aracy, descendente de alemães e nascida no Paraná em 1908, casou-se com um alemão, ainda no Brasil, e tiveram um filho, Eduardo. Após alguns anos, separou-se do marido, algo muito mal visto à época, e mudou-se para Hamburgo, para aqui viver com sua tia e seu filho pequeno. O ano era 1937. A Alemanha ainda não estava em guerra, mas o partido nazista já havia alcançado o poder e não poupava meios para difundir sua ideologia. Através das leis antissemitas, promulgadas dois anos antes (as chamadas Leis de Nuremberg), o cotidiano dos judeus na Alemanha já era cada vez mais restrito e sufocante.

É nessa contexto que Aracy chega ao novo país. Poliglota, passa a trabalhar no consulado brasileiro em Hamburgo, no setor de emissão de passaportes. Sua posição não lhe garantia imunidade diplomática, mas lhe dava a vantagem de ter acesso às autorizações para viagens ao Brasil.

Foi assim que Aracy conseguiu que os judeus que tentavam fugir dos campos de extermínio, pudessem  fugir para o Brasil. A pesquisa de alguns documentos e relatos destes sobreviventes mostram que Aracy misturava os papéis submetidos à assinatura do cônsul brasileiro, ou omitia a letra J, de judeu, para que não se soubesse a religião do beneficiário do documento (já que aos judeus era negado o visto brasileiro, assim como em muitos países na época, que recusavam-se a aceitá-los).

Estação central de trens de Hamburgo em 1938. (Foto: http://www.hamburg-bildarchiv.de/XBA4322.jpg)

Outra estratégia por ela utilizada teria sido o contato com funcionários alemães, para conseguir documentos de residência falsos, que permitiam o atendimento às vítimas, mesmo quando não eram originais de Hamburgo. Além disso, também auxiliou financeiramente algumas vítimas, para que pudessem custear suas viagens de fuga.

Em 09 de novembro de 1938, durante a trágica Noite dos Cristais, Aracy chegou a abrigar um casal de judeus em sua própria residência.

Neste mesmo ano, ela é apresentada ao novo cônsul-adjunto em Hamburgo, João Guimarães Rosa, de quem futuramente seria a musa e companheira até o fim da vida do escritor, na década de 1960. Em Hamburgo, casaram-se e retornaram ao Brasil em 1942, já durante a guerra, quando a Alemanha rompe relações com o Brasil.

Aracy e João Guimarães Rosa em Hamburgo. (Foto: http://revistapesquisa.fapesp.br/en/2011/11/11/a-guerra-dos-rosas-2/)

A heroína discreta

Anos após o retorno de Aracy ao Brasil, e sem qualquer revelação sobre seus atos de socorro às vitimas do holocausto, sua história vem à tona, através dos descendentes de pessoas salvas por ela. Nem mesmo seu filho e familiares sabiam exatamente o que Aracy havia feito em Hamburgo, mas sabiam ser algo referente aos judeus, pois nos anos seguintes, sucedem-se as homenagens à Aracy dentre a comunidade judaica no Brasil. Em 1982, seu nome foi incluído no rol dos Justos Entre as Nações, no memorial Yad Vashem, em homenagem às vítimas do holocausto, em Israel.

Aracy recebe homenagem no Yad Vashem, em Israel (Foto: https://www.yadvashem.org/sites/default/files/styles/main_image_1block/public/02_127.jpg?itok=2mq6f6Kx)

Aracy de Carvalho nasceu em 20 de abril de 1908, no dia do aniversário de 19 anos de Adolf Hitler, e faleceu em 2011, aos 102 anos, em São Paulo.

Enquanto tantos oficiais nazistas cumpriam as mais abjetas ordens, pois estas eram permitidas legalmente dentro do sistema do governo nazista e, portanto, deveriam ser seguidas, Aracy descumpriu estas regras, porque nem sempre a lei é moral, ou correta, ou justa. Este foi um questionamento levantado  durante os julgamentos dos oficiais nazistas após a Segunda Guerra. Por sua disponibilidade em ajudar, colocando a própria vida em risco, e por de fato, ter salvo tantas pessoas, Aracy passou a ser conhecida como “o anjo de Hamburgo”.

A própria Aracy não se considerava uma heroína. Ao ser perguntada porque havia se arriscado para salvar tantos desconhecidos, ela disse “porque era o justo”.

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Recomendo o documentário “Esse Viver Ninguém Me Tira“, que mostra de forma muito delicada e emocionante a história de Aracy, suas cartas a Guimarães Rosa e depoimentos de seus familiares e sobreviventes por ela salvos.

Em breve, a Rede Globo também exibirá a série “O Anjo de Hamburgo” inspirada na história de Aracy. Tivemos a honra de fazer parte de uma pequena parcela desse projeto, ao apresentarmos a nossa linda Hamburgo ao diretor Jayme Monjardim durante sua visita à cidade.

Fontes:

http://www.morasha.com.br/holocausto/a-historia-e-a-familia-do-anjo-de-hamburgo.html

http://db.yadvashem.org/righteous/family.html?language=en&itemId=4014490

Documentário “Esse Viver Ninguém Me Tira”

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